“Você já Falhou Alguma vez na Hora H?”: A Primazia da Sexualidade na Produção dos Corpos Masculinos

O Distúrbio Androgênico do Envelhecimento Masculino (DAEM) tem sido alvo de importantes campanhas das indústrias farmacêuticas, que buscam atingir o público de homens sobre a necessidade de reposição hormonal a partir do envelhecimento, para garantir a qualidade de vida no futuro. O corpo jovem e ativo sexualmente é um dos principais sinais de saúde na nossa sociedade, sendo usado pela indústria farmacêutica como importante forma de apelo para incentivar o uso de testosterona.

Fabíola Rohden (2012) compara o processo de medicalização do DAEM e da disfunção erétil com a luta dos médicos no início do século XX para combater a sífilis, apesar da diferença do contexto histórico e do modo de atuação do Estado. O combate à sífilis era uma preocupação não só individual, mas principalmente do Estado, que utilizava diferentes estratégias higienistas e mantinha o foco na coletividade. O tratamento do DAEM tem um aspecto mais individualista, de aprimoramento e autocuidado, indo muitas vezes em direção oposta à discussão sobre saúde integral do homem, cidadania, promoção de saúde e políticas públicas.

Não se trata mais do autocontrole necessário aos cidadãos dos Estados emergentes, mas do autocuidado imprescindível aos indivíduos responsabilizados por sua saúde, bem-estar e aprimoramento. Poder-se-ia falar de uma medicalização “por dentro” e “para a melhoria”, atrelada à promoção da saúde enquanto valor cultural e bem de consumo (Rohden, 2012, p. 2652).

O combate à sífilis se dirigia a um problema externo que provocava mazelas no homem e que prejudicaria a nação, o tratamento do DAEM se volta para o próprio sujeito, encontrando falhas inerentes no funcionamento bioquímico deste corpo que é ameaçado pela diminuição de desempenho.

A perspectiva individualista e de aperfeiçoamento do sujeito na qual se pauta o DAEM tem obtido sucesso também devido à noção atual de que a base do funcionamento do corpo é a sua bioquímica, na qual os hormônios teriam a função de determinar diferentes características sexuais do sujeito (Oudshoorn, 1994).

Doutor Aguinaldo: após os 40 anos de idade, o hormônio masculino que se chama testosterona pode diminuir em torno mais ou menos de 1% ao ano. Ao redor de 15% dos homens vão sofrer as consequências da diminuição desse hormônio, e isso vai levar a um quadro que era muito conhecido como andropausa, cujo nome está errado, porque, diferentemente das mulheres, que a menopausa faz uma parada da produção dos hormônios, nos homens, isso não ocorre. Existe só uma diminuição, então, o nome correto desse conjunto de sinais e sintomas foi traduzido como Distúrbio Androgênico do Envelhecimento Masculino ou DAEM. O DAEM se caracteriza por uma série de sintomas que aparecem no homem e vamos falar de alguns deles aqui: fadiga; mal-estar; desânimo; apatia; algumas vezes, depressão; aumento da adiposidade de gordura no abdome, formando a barriga; diminuição da massa muscular; e, principalmente, diminuição do desejo sexual e, algumas vezes, queda da ereção. E esse conjunto de sinais e sintomas, quando estiver associado ao baixo nível de hormônio no sangue, que é a testosterona, é feito então o diagnóstico de DAEM. E quem tem DAEM precisa ser tratado. A reposição da testosterona, hoje em dia, é um processo seguro, eficaz e com muita tranquilidade. O homem pode repor voltando aos seus níveis normais de testosterona e evitando, com isso, que ocorra queda com fraturas ósseas, diminuição da massa muscular, alterações da memória, alterações espaciais, que nós chamamos de alterações cognitivas, além de [garantir] uma qualidade de vida saudável. É benéfica tanto no seio familiar quanto no sentimento de cada um. Todo homem após os 40 anos de idade, que tenha algum sintoma, deve procurar o médico urologista, porque essa reposição de hormônio pode ser muito benéfica e proporcionar uma velhice saudável (Vídeo 34).

Apoiados no ideal de qualidade de vida, os tratamentos para disfunção erétil negam o processo de envelhecimento e restringem a sexualidade a um padrão moral e heteronormativo. A diminuição da testosterona provocaria a perda da libido, diminuição de massa muscular, depressão e disfunção erétil, estes sintomas caracterizariam o DAEM.

A disfunção erétil é percebida como falência do organismo, e não mais um processo de envelhecimento e declínio de determinadas funções do corpo. A base para a patologização da sexualidade masculina se pauta na compreensão de que o homem se define pela sua potência sexual e sua ereção, que não se envolve emocionalmente com seus parceiros sexuais.

A sexualidade seria, então, uma importante via de expressão da masculinidade hegemônica, que é viril, potente, dominante, insaciável, instintiva, incontrolável, agressiva, forte, ativa (Gomes, 2008). O tratamento da disfunção erétil mascara a possibilidade de exercício da sexualidade sem a ereção do pênis, que tem sido percebida como indispensável e central no sexo.

Tal problematização poderia ampliar a discussão acerca das práticas, ainda centrada em certa hierarquia moral que coloca, no topo, a penetração vaginal e, como clímax, a ejaculação masculina (Villela, & Arilha, 2003).

Perde-se a oportunidade de questionar a centralidade dessa forma hegemônica de fazer sexo e contemplar possibilidades alternativas (Pinheiro, Couto, & Silva, 2011, p. 854).

A masculinidade ativa, penetrativa, desprovida de afetos e pautada na heteronormatividade é atualizada no crescente diagnóstico de disfunção erétil. Os imperativos manter-se jovem e cuidar da saúde também contribuem para a comercialização da testosterona, que manteria os homens tanto potentes sexualmente como recuperaria a juventude perdida com o passar dos anos.

A testosterona está, então, atrelada ao modelo de masculinidade hegemônico; com isso, se antes se admitia a diminuição do sexo com o envelhecimento e a sexualidade das pessoas idosas era motivo de riso, atualmente, a atividade sexual se torna obrigatória e sinal de saúde e qualidade de vida na velhice e manutenção da virilidade (Rohden, 2012). Os fenômenos comuns à velhice, como a diminuição da tumescência peniana, a demora para atingir a excitação sexual e conseguir novamente a ereção, a diminuição da quantidade de sêmen ejaculado e da força com que ele é expelido, tornaram-se um quadro médico a ser tratado com uso de fármacos.

A capacidade erétil, como símbolo máximo da virilidade masculina, seria cobrada em todas as etapas da vida do homem. É importante destacar que o apelo de apresentar a ereção não atinge apenas os homens mais velhos, mas a disfunção erétil passa a figurar como um problema que pode atingir qualquer homem, independentemente da idade. Apesar de a disfunção erétil poder ser influenciada por outros aspectos que não a diminuição da testosterona, como uso de drogas tais como álcool e antidepressivos, os hormônios continuam sendo prescritos, inclusive como ferramenta preventiva de uma possível “falha” na hora do sexo.

A emergência de diferentes terapêuticas hormonais foi fundamental para a consolidação da disfunção sexual como categoria médica e medicalização da sexualidade masculina. O surgimento do Viagra no mercado é também um importante marco nessa história, apesar de não ser um fármaco de base hormonal, e sim um medicamento inicialmente destinado ao tratamento de problemas cardiovasculares, ele promoverá uma mudança no modo de tratar a disfunção erétil, desencadeando uma série de pesquisas e a divulgação massiva na mídia.

Na primeira década do século XXI, os hormônios começaram a ganhar destaque neste mercado da disfunção erétil, principalmente com a propagação de informações sobre a reposição hormonal masculina a partir da velhice. Tal propagação de informações sobre os tratamentos da disfunção erétil e velhice masculina aparece como um déjà vu em relação à massificação da reposição hormonal entre mulheres no climatério.

Desde 2001, o Congresso Mundial sobre Saúde do Homem e Gênero tem sido realizado anualmente, com apoio de quatorze grandes corporações da indústria farmacêutica, sendo que todas elas produzem fármacos à base de hormônios e outras drogas que são indicadas para o tratamento da disfunção erétil (Aquino, 2006).

A empresa Bayer Schering Pharma, que estava especialmente empenhada em promover-se como “o primeiro laboratório com portfólio focado na saúde do homem”, distribuiu no Congresso Internacional de Urologia realizado no Rio de Janeiro, em 2008, e no 10º Congresso da Sociedade Latino-Americana de Medicina Sexual, ocorrido em Florianópolis, o mesmo documento, intitulado “A saúde sexual como portal da saúde do homem” (Rohden, 2012, p. 2648).

A divulgação de tais fármacos é de suma importância para a indústria farmacêutica, que tem direcionado grande parte do seu capital para propagandas, superando inclusive o investimento em pesquisas. A propaganda busca atingir desde o médico, com apresentações em congressos e publicações em periódicos científicos, até o potencial público consumidor. A Bayer faz propagandas no período do Novembro Azul, campanha mundial dedicada à conscientização sobre o câncer de próstata e à saúde do homem, a fim de atingir um público diversificado, como podemos ver no trecho de um vídeo abaixo:

Jornal da Band – Boris Casoy – apresentador

Narrador: No dia do homem, um dado alarmante, 62% dos brasileiros que fazem uso de estimulantes sexuais não buscam orientação médica, e o mais grave, metade dos homens nunca foi ao urologista. Homens fogem do urologista. Tanta informação disponível e o tema ainda é tratado como tabu.

Jornalista: Você já falhou alguma vez na hora H?

Homem I: Que pregunta mais indiscreta.

Homem II: Não, não, até agora não.

Jornalista: Quem tem mais experiência não se incomoda em afirmar que já fez usos de estimulantes sexuais.

Homem III: Um pedacinho é o suficiente, uma vez só.

Jornalista: Uma pesquisa feita pela sociedade de urologia em 8 capitais mostra que 62% dos homens que tomam remédios para melhorar a performance sexual fazem isso por conta própria, 39% confessam comprar na farmácia, enquanto 5% confessam adquirir em camelôs.

Alfredo (Sexólogo): A maioria dos homens que nos procuram com uma disfunção erétil já tomaram a maior parte dos comprimidos existentes na praça, em quantidades muitas vezes absurdas. Ele apenas está retardando um tratamento que realmente possa ser feito com efetividade por não procurar ajuda médica.

Luiza: Metade dos brasileiros ouvidos na entrevista admitem nunca ter ido no urologista, a maioria por falta de tempo, outros por medo de descobrir algum problema de saúde. Para mudar essa realidade e despertar o interesse dele em procurar ajuda, um mutirão de profissionais oferece atendimento gratuito em uma estação de metrô daqui de São Paulo.

A ação aproveitou o Dia do Homem para incentivar dezena deles para medir a pressão, o peso, a circunferência abdominal e os níveis de testosterona – hormônio que diminui com o passar da idade. Esses seriam os exames obrigatórios para determinar se o paciente precisa ou não de estimulante sexual, além de uma avaliação psicológica (Vídeo 32).

É comum o argumento de que os homens não se importam ou não cuidam da própria saúde, porém se preocupam com o desempenho sexual; assim sendo, a sexualidade foi o meio pelo qual o saber biomédico pôde capturar os homens. Argumenta-se que, pela via da sexualidade e busca por acompanhamento com o urologista, os homens poderiam ter acesso a outras especialidades médicas e cuidar da própria saúde de modo integral.

A disfunção erétil se articula com outras questões relacionadas à saúde do homem, como o uso de medicamentos para hipertensão, por exemplo. O Ministério da Saúde (Brasil, 2013), ao discutir a saúde sexual e reprodutiva do homem na velhice, busca informar que algumas medicações, como as indicadas para hipertensão e depressão, podem influenciar no desempenho sexual, mas que, apesar dos efeitos, esses fármacos devem continuar sendo utilizados. Em nenhum momento esse aspecto é destacado quando se fala da saúde sexual da mulher na velhice, pois o desempenho sexual seria um fator relevante especialmente para os homens, que costumam parar o tratamento e suspender o uso de fármacos que afetam a sua ereção, mesmo que isso provoque outros danos a sua saúde. O Ministério da Saúde (Brasil, 2013) chega a indicar fármacos que estão disponíveis na Atenção Primária para tratar a disfunção erétil, a fim de não diminuir os atendimentos dos homens.

A imagem de instabilidade e vulnerabilidade, antes presente apenas quando se falava do corpo feminino, afetado pela oscilação hormonal, agora também atinge o homem, ameaçando a noção de masculinidade naturalmente potente. Porém, assim como a pílula anticoncepcional e a reposição hormonal são apresentadas como redentoras da mulher, pois elas conseguem, com estas substâncias, atingir um equilíbrio “mental e corporal”, com os homens, a testosterona surge de forma semelhante para salvá-los da inconstância e instabilidade da sua ereção, garantindo a satisfação sexual (Rohden, 2009).

A relação com os médicos, aqueles que detêm o saber sobre o funcionamento ideal da sexualidade, começa a se estabelecer, e os homens que historicamente apresentavam resistência aos serviços de saúde, de modo geral, passam a depender destes profissionais para garantir o funcionamento da sua sexualidade.

A recente inserção dos homens na discussão sobre saúde está associada ao seu lugar na hierarquia social, tanto que as indústrias farmacêuticas têm utilizado a estratégia do desempoderamento e falência da masculinidade para promover uma maior aproximação entre o homem e os serviços de saúde. Fabíola Rohden (2012) discute que o sucesso dos fármacos voltados para a disfunção erétil se entrelaça com a ideia de masculinidade em crise, ilustrada pela perda de ereção. “A noção de que a ereção, símbolo da virilidade e da identidade masculina, é efetivamente instável, sujeita a vários tipos de percalços parece ganhar cada vez mais notoriedade” (Rohden, 2012, p. 2650).

Porém os movimentos sociais têm buscado outras estratégias para promover tal aproximação, tendo como base a divulgação de informações e a problematização do modelo hegemônico de masculinidade. A intensificação das discussões sobre saúde do homem, no Brasil, materializou-se com o lançamento, em 2009, da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH).

A luta crescente pela promoção da saúde integral do homem se confunde com a agenda das indústrias farmacêuticas. Na área de saúde, tem-se buscado demonstrar como a “masculinidade hegemônica” gera comportamentos danosos à saúde, inclusive Sérgio Carrara, Jane Russo e Livi Faro (2009) argumentam que a própria PNAISH se estrutura a partir de tal argumento, em que os homens são vítimas de sua própria masculinidade. Porém esses autores analisam que:

A condição para que ocorra a mudança cultural necessária para fazer com que os homens (heterossexuais) tenham uma relação tão reflexiva com seus próprios corpos quanto seus vários “outros” (mulheres, homossexuais, travestis) é que tais “outros” tenham o mesmo poder e prestígio que eles. Tudo se passa como se os homens precisassem se tornar socialmente vulneráveis para poder perceber sua vulnerabilidade biológica e para ver algum sentido na luta por ultrapassá-la. Dito de outro modo, mostrar-se invulnerável faz parte do exercício do poder pelos homens e o poder tem um “preço” (uma vida mais curta ou menos saudável) que, parece, os homens ainda estão dispostos a pagar (Carrara et al., 2009, pp. 672 -673).

Enquanto os movimentos sociais buscam que os homens acessem os serviços de saúde e protagonizem a luta por promoção de saúde e cuidado, as indústrias farmacêuticas apresentam o homem como vítima de um corpo falho e pouco potente, que deve buscar nos fármacos a melhoria do seu desempenho (Carrara et al., 2009).

A perspectiva do homem como modelo de ser humano universal o afasta do homem “concreto”, que tem uma história de vida, orientação sexual, etnia, religião, geração, classe, está inserido em diversas redes, marcado por questões culturais e históricas. Tais articulações produzem diferentes masculinidades, que podem se afastar ou se aproximar do modelo hegemônico.

A concepção de que o tratamento da disfunção erétil poderia figurar como porta de entrada para saúde do homem pode ser controversa, pois continuaria centrando a saúde dos homens na sua sexualidade e reduzindo a saúde sexual à capacidade de ereção. A diversidade de modos de exercer a sexualidade torna-se disfunção a partir do discurso biomédico, e o modelo de masculinidade hegemônico é naturalizado. A sexualidade seria, então, uma importante via de expressão da masculinidade hegemônica, que é viril, potente, dominante, insaciável, instintiva, incontrolável, agressiva, forte, ativa (Gomes, 2008).

A disfunção erétil é atravessada pelas “novas tecnologias” biomédicas, discurso normativo sobre o sexo, a noção de saúde sexual, tendo como parâmetro o casal heterossexual e os estereótipos de masculinidade. As preocupações com as Doenças Sexualmente Transmissíveis (IST) e a gravidez não planejada parecem sumir na era do desempenho sexual promovido pelo controle bioquímico do corpo2. Inclusive o saber biomédico parece começar a perder parte do seu status ante a força das indústrias farmacêuticas.

O DAEM faz parte de uma rede heterogênea, que envolve a testosterona, as indústrias farmacêuticas, propagandas, médicos, exames clínicos, laboratórios, amostras de sangue etc. Modos de subjetivação têm sido configurados nessa rede complexa, que institui sujeitos medicalizados, em busca constante por se aperfeiçoar e permanecer jovem, e se autogoverna. Nela, a bioquímica e os hormônios estruturam o funcionamento corporal.

A testosterona não só trataria a disfunção erétil como também preveniria tal problema. Essa substância, então, pertenceria a um conjunto de fármacos voltados para melhoria do desempenho, aperfeiçoamento do sujeito (Rose, 2013), como podemos analisar no trecho abaixo:

Dr. Aguinaldo Nard: A diminuição do hormônio masculino nos homens pode caracterizar vários sinais, como: diminuição da qualidade de vida, astenia, cansaço, apatia, diminuição da força muscular, aparecimento da barriga pelo aumento da adiposidade visceral e também distúrbios sexuais, como diminuição do desejo, e, em casos menores, impotência sexual ou disfunção erétil, como nós preferimos chamar (Vídeo 33).

A testosterona está articulada a uma série de efeitos que envolve desde a disfunção erétil até apatia. Essa substância tem sido utilizada de diferentes modos, desde a reposição hormonal para homens e mulheres na velhice, até o uso de anabolizantes, que são indicados para o tratamento de algumas doenças, tais como anemia, alguns tipos de câncer, casos de reposição hormonal, atrofias musculares, estímulo do crescimento em caso de puberdade masculina tardia, entre outras.

Esses medicamentos têm a propriedade de aumentar os músculos e, por esse motivo, são muito procurados por atletas ou pessoas que querem melhorar o desempenho e a aparência física. “O uso estético de anabolizante não é feito por indicação médica, portanto é ilegal e ainda acarreta problemas à saúde” (ANVISA, 2010, p. 90). Além do fim estético e esportivo para aumento da massa muscular e força, há relatos de indicação da testosterona para o tratamento de osteoporose, anemia, ganho de peso para pacientes terminais e com AIDS (Figueiredo, 2013).

Dessa forma, interesses políticos, econômicos, simbólicos e científicos se entrelaçam na rede, produzindo diferentes efeitos que não estavam previstos nos primeiros estudos sobre a testosterona. Os deslocamentos da substância são múltiplos, indo do campo de concentração até as clínicas para tratamento de impotência.

 

Considerações Finais

Este estudo buscou traçar linhas de fuga, ao analisarmos os agenciamentos produzidos pela testosterona na conformação/deslocamentos das masculinidades na contemporaneidade, estabelecendo controvérsias e colocando em questão os padrões de sexo e sexualidade instituídos. Buscamos ainda estabelecer relações entre os saberes sobre a testosterona e a produção biopolítica dos efeitos de verdade; e analisar regulações da sexualidade e práticas de masculinização agenciadas por estas substâncias.

Os hormônios estão envolvidos em uma série de controvérsias. Tais substâncias escapam da função para qual elas foram inicialmente destinadas, provocando uma série de subversões e se entrelaçando com diferentes modos de subjetivação. Podemos perceber que, de acordo com os encontros que os hormônios tiveram, tais enlaces produziram efeitos diversos, entre eles, a renaturalização do modelo binário de sexo.

Os vídeos definem os homens pela quantidade de testosterona que circula em seus corpos. Tal hormônio é associado ao vigor sexual, força, energia, disposição, agressividade, e com isso os homens estariam fadados ao espaço público e exercício da sexualidade penetrativa. O saber e poder biomédico associa a testosterona à natureza masculina, produzindo, como efeito de verdade, modos de subjetivação masculina. O binarismo de sexo é reatualizado com a substancialização da diferença sexual a partir dos hormônios. Configura-se, assim, uma essencialização do que é ser homem ao se discutir os usos da testosterona.

Consideramos que as análises aqui apresentadas podem ser adensadas a partir do necessário investimento em outros estudos sobre a comunicação produzida por instituições associadas ao poder biomédico, especialmente aquelas associadas à indústria farmacêutica e à mercantilização da saúde, evidenciando esse processo de essencialização e naturalização de modos de subjetivação masculina, ancorados no binarismo de sexualidade e gênero. Tais análises podem contribuir para os esforços de análise crítica sobre modelos de masculinidade valorizados nessas produções discursivas que restringem liberdades e produzem sofrimento e morbidades.

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